Você já deve ter reparado que, nos relacionamentos amorosos de muitas pessoas, alguns padrões parecem se repetir de forma viciosa. De um lado, é comum ouvirmos queixas sobre homens que “fogem” quando as coisas ficam sérias, que têm medo de assumir compromissos ou que simplesmente se esquivam na hora de demonstrar vulnerabilidade de forma aberta. Do outro lado, há o desabafo frequente de mulheres que sentem que se doaram tanto a uma relação que acabaram esquecendo quem eram, mergulhando em um sofrimento profundo e obsessivo pelo outro, sem na verdade receber algo suficientemente bom (de valor) em troca dentro da relação.
Será que isso é apenas uma questão de “falha de comunicação” ou de incompatibilidade de personalidades? Para a psicanálise, a resposta vai muito mais fundo do que normalmente achamos que possa ser. Sigmund Freud e, mais tarde, Jacques Lacan, apontaram que homens e mulheres (aqui pensados a partir de posições subjetivas e estruturas psíquicas, para além da biologia) tendem a adoecer e a sofrer por caminhos radicalmente diferentes na vida emocional.
Se pudéssemos resumir essas armadilhas da mente de forma direta, diríamos que o grande nó masculino é a covardia visceral, enquanto o grande perigo feminino é a devastação e a autoanulação.
O Lado Masculino: A “Covardia Visceral” e o Medo de Perder
Para entendermos o que os psicanalistas chamam de covardia no homem, precisamos desmistificar a palavra. Não estamos falando de falta de coragem física para brigar na rua, saltar de paraquedas ou para ir a guerra. Trata-se de uma covardia estrutural diante do próprio desejo e da própria vulnerabilidade.
Na teoria freudiana, o desenvolvimento do homem é profundamente marcado pelo chamado “Complexo de Castração“. Em termos simples, o menino cresce com o medo inconsciente de perder o seu poder, a sua potência (simbolizada pelo falo). Quando esse homem entra na vida adulta, ele frequentemente desenvolve uma fixação: a necessidade de proteger o seu ego e as suas certezas a qualquer custo.
Isso se manifesta na clínica através da neurose obsessiva. O homem “covarde” (no sentido psicanalítico) é aquele que prefere calcular tudo, manter o controle e racionalizar os sentimentos para não correr o risco de se dar mal.
Como a covardia masculina aparece no dia a dia:
O recuo diante do amor: Amar de verdade exige desarmar-se, estar vulnerável, aceitar que o outro tem o poder de nos ferir. O homem que recua prefere terminar a relação ou se manter distante porque não suporta a ideia de perder o controle dessa dimensão.
A fantasia da “mulher ideal” versus a “mulher real”: Muitos homens dividem as mulheres entre aquelas que servem para o desejo carnal e aquelas que servem para o respeito e o lar. Eles fazem isso porque desejar uma mulher real, com vontades próprias e imperfeições, ameaça a sua estabilidade psíquica e a crença na capacidade de controle.
O adiamento eterno: É o homem que nunca está pronto para dar o próximo passo (casar, morar junto, ter filhos), sempre esperando a estabilidade financeira perfeita ou o momento ideal que nunca chega.
Ele recua porque dar vazão ao desejo verdadeiro exige bancar um preço alto. E, na dúvida, ele prefere a segurança morna do seu próprio isolamento mental à vertigem da “montanha russa” de se apaixonar e amar de verdade, porque amar é estar abertamente vulnerável na vida.
O Lado Feminino: A “Devastação” e a Busca pelo Amor Infinito
Se o homem peca pelo recuo e pela tentativa de se proteger dentro de uma fortaleza grossa de lógica, a mulher frequentemente sofre pelo extremo oposto: a entrega absoluta.
Jacques Lacan introduziu um conceito fundamental para explicação do sofrimento feminino: a devastação (ravage). Trata-se de um sentimento de ruína, de desamparo absoluto e de angústia catastrófica que muitas mulheres experimentam nas relações durante suas vidas.
A origem disso, segundo a psicanálise, está na primeira relação da mulher: o vínculo com a própria mãe. Como a menina precisa se descolar da mãe para buscar o amor em outro lugar, esse primeiro corte costuma ser muito mais complexo e doloroso do que o do homem. Se essa transição não for bem mediada, a mulher pode passar a vida buscando nos parceiros um amor absoluto, sem frestas, sem falhas e que se entrega somente a ela com exclusividade na vida — uma repetição daquela fusão original (inicial) com a mãe.
A cilada da autoanulação
Enquanto o homem se defende dizendo “não quero perder nada”, a posição feminina muitas vezes cai na armadilha do “darei ou dou tudo de mim”. Na tentativa de ser o objeto de desejo exclusivo do outro, a mulher corre o risco de se apagar. Ela muda seus gostos, seus planos, suas amizades e sua rotina para caber na fantasia e expectativa do parceiro.
O sofrimento feminino, portanto, nessa situação assume contornos de masoquismo primário. Não porque a mulher “goste de sofrer” (como o senso comum tolamente propaga), mas porque ela aceita o sofrimento e o sacrifício como uma moeda de troca para garantir que o outro continue amando-a e a desejando, mesmo que não seja de uma forma real e suficientemente boa. Na lógica do “Não-Toda” (conceito lacaniano que mostra que o gozo feminino não se limita às regras rígidas e lógicas do mundo masculino), a mulher lida com um vazio existencial que nenhuma palavra ou contrato consegue preencher totalmente. Diante desse vazio sem nome, a resposta muitas vezes é a angústia da devastação que é a sensação de ruína total e apagamento de si mesma que uma mulher experimenta quando o laço amoroso com o Outro (seja um parceiro, uma parceira ou a própria mãe) falha ou ameaça acabar. É a dor de sentir que, se o amor daquela pessoa sumir, a própria existência da mulher vai junto pelo ralo.
O Choque de Monstros: Quando a Covardia Masculina se Encontra com a Devastação Feminina
Quando esses dois funcionamentos se cruzam em um relacionamento amoroso, o cenário para o conflito está armado. O analista e escritor Contardo Calligaris costumava lembrar que os casais muitas vezes não se unem pelo que têm de melhor, mas sim pelo encaixe perfeito de suas neuroses.
A tabela abaixo pode ilustrar como esses dois mundos colidem na dinâmica afetiva:
| Característica Psíquica | A Posição Masculina (Lógica Fálica/Obsessiva) | A Posição Feminina (Lógica do Não-Toda/Histérica) |
| Mecanismo de defesa principal | Isolamento, intelectualização e recuo emocional. | Identificação com o desejo do outro e entrega total. |
| O maior medo inconsciente | Perder o controle, ser castrado (frustrado), parecer impotente. | Ser abandonada, não ser amada, cair no vazio do desamparo. |
| Sintoma clássico no amor | A covardia de não bancar o desejo; tratar o relacionamento como um negócio calculado. | A devastação; anular a si mesma para sustentar a relação e salvar o parceiro. |
| A queixa comum na terapia | “Sinto-me sufocado, ela me cobra o tempo todo.” | “Eu fiz de tudo por ele e olha como ele me trata.” |
Essa dinâmica gera um círculo vicioso destrutivo: quanto mais o homem recua e se esconde em sua covardia visceral, mais a mulher se sente desamparada e devastada. Para aplacar a angústia, ela cobra e se doa ainda mais, o que faz com que o homem se sinta sufocado e recue mais um passo.
Existe Saída Fora Desse Labirinto?
A psicanálise não aponta esses problemas para diagnosticar um “fim dos tempos” nas relações, mas para abrir caminhos de libertação. Ninguém está condenado a ser o prisioneiro eterno da covardia ou da devastação.
O caminho para o homem passa por aceitar a sua própria falta. Ele precisa entender que perder o controle não significa ser destruído, e que a verdadeira potência não está em ficar em cima do muro calculando os riscos meticulosamente, mas sim na coragem de desejar e bancar as consequências dessa escolha.
Para a mulher, o processo envolve aprender a colocar um limite na sua doação. Significa suportar o fato de que o outro nunca vai preencher o seu vazio interior por completo nessa vida — e que isso é perfeitamente normal. Ao resgatar o seu próprio desejo (para além do desejo do parceiro), ela consegue sair da posição de objeto de sacrifício e assumir o lugar de sujeito da sua própria história.
Afinal, o amor maduro só é possível quando dois sujeitos, conscientes de suas próprias faltas e fraquezas, decidem caminhar juntos — sem que um precise fugir e sem que o outro precise se anular.
Afonso B. Bertini
Referências Bibliográficas
FREUD, Sigmund. A organização genital infantil e outros textos (1923-1925). In: Obras Completas, Volume 16. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. (Trata do complexo de castração e das bases da diferenciação anatômica dos sexos).
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 20: Mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. (Texto fundamental onde Lacan desenvolve as fórmulas da sexuação, o conceito de “Não-Toda” e o gozo feminino).
SOLER, Colette. O que Lacan dizia das mulheres. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. (Uma análise detalhada sobre o conceito de devastação e a posição feminina na clínica lacaniana).
CALLIGARIS, Contardo. Crônicas do Amor e do Desamor. São Paulo: Boa Companhia, 2014. (Artigos e reflexões de leitura acessível sobre as neuroses contemporâneas nos casamentos e namoros).


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