Caixas Mentais

Mente, comportamento, reflexões, relacionamentos e análise de fatos da humanidade.


A Arquitetura do Ódio Distante: Por que há pessoas que apoiam massacres que não os atingem?

Você já reparou como as redes sociais viraram um grande Coliseu moderno? No conforto de nossas casas com nossas famílias seguras, assistimos a prédios desabando e corpos de civis, mulheres, crianças e idosos sendo retirados de escombros em Gaza como se fosse o trailer de um filme de ação. Mas, para algumas pessoas, o sentimento não é de horror; é de satisfação. Como a mente humana chega a esse ponto?

Não é apenas “falta de caráter” ou “má índole”. A psicanálise nos ensina que, quando o assunto é violência extrema, nossa mente aciona mecanismos de defesa muito antigos para que possamos continuar jantando em paz enquanto o mundo pega fogo.

O Mundo em Preto e Branco: A Clivagem

O primeiro conceito fundamental aqui é a clivagem (ou cisão), estudada por Melanie Klein. Imagine a mente de um bebê: para ele, o mundo é dividido entre o “seio bom” (que alimenta) e o “seio mau” (que demora a chegar). Ele não entende que a mesma mãe que o ama é a que o frustra.

Quando adultos enfrentam temas complexos como o conflito em Gaza, muitos regridem a esse estado infantil. O mundo é dividido entre “puros” e “impuros”, “heróis” e “monstros”. Ao clivar a realidade, a pessoa não precisa lidar com a ambiguidade. Se eu decido que um lado é o mal absoluto, qualquer violência contra ele (tanto faz se são mulheres, crianças ou idosos) também deixa de ser um crime e passa a ser uma “limpeza”. É o fim da nuance e o nascimento do fanatismo.

Desumanização: “Eles não são como nós”

Para que alguém apoie um massacre, o primeiro passo psíquico é retirar a humanidade da vítima. Na psicanálise, isso se liga ao conceito do “Estranho” (Das Unheimliche) de Freud. O outro é visto como algo tão diferente, tão “não-humano”, que a empatia simplesmente não consegue atravessar a barreira.

Ao apoiar a violência à distância, a pessoa constrói uma narrativa onde as crianças, mulheres e civis do “lado de lá” são apenas estatísticas ou, pior, “escudos humanos”. Quando você retira o rosto e a história de uma pessoa, você mata a pessoa psiquicamente antes mesmo da bomba cair mutilar e acabar com a vida dela. Sem rosto, sem proximidade, sem qualquer troca de relação humana, não há culpa.

A Identificação com o Agressor

Este é um dos mecanismos mais curiosos e tristes, descrito por Anna Freud. Às vezes, o espectador distante sente-se secretamente impotente em sua própria vida — no trabalho, na família ou diante da economia. Ao ver uma potência militar agindo com força bruta, essa pessoa se identifica não com a vítima (que é frágil), mas com o agressor (que é forte).

É uma forma de pegar “poder emprestado”. Ao torcer pelo massacre, o sujeito sente-se, por alguns instantes, invencível. “Nós somos fortes, nós esmagamos o inimigo”. É a fantasia de onipotência mascarando uma profunda insegurança pessoal e humana.

O Ódio como Alívio: A Projeção

Todos nós temos sombras. Temos raiva, desejos agressivos e frustrações que a civilização nos obriga a engolir. Freud explicava que a projeção é o ato de “jogar” no outro aquilo que não aceitamos em nós mesmos.

Quem apoia massacres de longe geralmente usa o conflito como um lixo psíquico. Eles pegam todo o seu ódio acumulado pela vida e o depositam em um grupo específico vulnerável. É um alívio catártico: “Eu não sou uma pessoa violenta, eu só quero que aqueles bárbaros sejam eliminados”. O ódio ao outro serve, ironicamente, para manter a imagem de que somos “pessoas de bem”.

O Efeito de Massa e o Superego Digital

Em seu texto Psicologia das Massas e Análise do Eu, Freud destaca que, quando fazemos parte de um grupo (ou de uma bolha digital), nossa consciência individual dá um passo para trás. O grupo passa a ser o nosso “Superego”, aquilo que dita o que é supostamente correto, independente de ser ou não realmente moral ou ético.

Se o meu grupo diz que apoiar o massacre é uma prova de lealdade ideológica ou religiosa, eu sinto que tenho permissão para ser cruel. A responsabilidade é diluída. “Não sou eu quem está dizendo isso, é todo o meu grupo”. Nas redes sociais, esse efeito é multiplicado pelo algoritmo, que nos alimenta apenas com o que reforça nosso preconceito, criando uma anestesia moral completa muitas vezes com alta taxa social.

A Banalização e a Pulsão de Morte

Por fim, não podemos esquecer da Pulsão de Morte (Thanatos). Freud, após a Primeira Guerra Mundial, percebeu que o ser humano não busca apenas o prazer (Eros), mas tem uma força estranha que o empurra para a destruição.

O apoio ao massacre à distância é uma manifestação “voyeurista” dessa pulsão. É o prazer sombrio de ver o caos, desde que o sangue não suje as nossas próprias mãos e os nossos tapetes. É a barbárie gourmetizada pela distância geográfica e pela tela do celular.

O Desafio da Alteridade

Apoiar um massacre enquanto se toma um café em meio ao conforto e paz com a própria família, seus filhos, irmão saudáveis e seguros ao redor da mesa é um sintoma de uma mente que precisou se fragmentar para não sentir dor. É a falência da capacidade de reconhecer a Alteridade — o fato de que o outro, mesmo sendo diferente de mim, é um sujeito legítimo com direito à vida, a integridade e a segurança para não acabar recebendo um míssil no meio de sua sala de estar enquanto sua família está lá.

Para sair desse ciclo, é preciso coragem psíquica para sair da caixa e encarar a complexidade e aceitar que o sofrimento humano não tem lado. Enquanto usarmos conflitos distantes para alimentar nossos próprios monstros internos, a paz continuará sendo apenas uma palavra bonita em livros de teoria, e a barbárie continuará tendo uma plateia fiel.

Afonso B. Bertini

Referências

DUNKER, Christian. Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil contemporâneo. São Paulo: Boitempo, 2015.

FREUD, Anna. O ego e os mecanismos de defesa. Porto Alegre: Artmed, 2006.

FREUD, Sigmund. O inquietante (1919). In: Obras completas, volume 14. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos (1920-1923). In: Obras completas, volume 15. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: Obras completas, volume 18. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

KLEIN, Melanie. Notas sobre alguns mecanismos esquizoides (1946). In: Inveja e gratidão e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.

ZIZEK, Slavoj. Bem-vindo ao deserto do real!: cinco ensaios sobre o 11 de setembro e datas relacionadas. São Paulo: Boitempo, 2003.



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