Quem nunca ouviu que “amor não enche barriga”? Que “quando o dinheiro acaba o amor pula pela janela”?
No mundo real, onde os boletos não perdoam, as dividas do cartão explodem, o carro velho quebrando frustra e esvazia mais ainda os bolsos com as manutenções, comida cara, leite dos filhos e até café tá caro, a ideia de escolher um parceiro pela estabilidade financeira é um tabu que muita gente esconde, mas que a ciência estuda há décadas a fundo.
Mas será que dar “match” no extrato bancário garante final feliz? Vamos ver o que os pesquisadores descobriram sobre esse dilema.
O instinto de sobrevivência (Não é só interesse, é evolução!)
Antes de julgarmos quem busca alguém “bem de vida”, a psicologia evolucionista tem um palpite. Segundo o pesquisador David Buss, que estudou 37 culturas diferentes em seu histórico, o interesse por recursos financeiros não é maldade, é instinto básico.
Historicamente, buscar parceiros com recursos era uma forma de garantir que os filhos sobrevivessem em condições melhores de vida. Por isso, até hoje, nosso cérebro dá aquela conferida básica se a pessoa tem “capacidade de prover”. É o modo sobrevivência ligado, mesmo que a gente não perceba.
As Raízes no Inconsciente
Na perspectiva psicanalítica, de Sigmund Freud, o ato de escolher ou abandonar um relacionamento por interesse financeiro raramente se resume a uma escolha puramente racional.
Essas escolhas podem estar conectadas a carências e conflitos inconscientes vivenciados na infância. A segurança financeira pode simbolizar uma proteção ou um amor que faltou, tornando-se um objeto de desejo substitutivo no período da fase adulta.
Além disso, a busca por status e poder pode ser uma compensação para complexos de inferioridade, onde a estabilidade material eleva a autoestima e a posição social. A estabilidade financeira pode ser uma resposta à pressão social, uma forma de validação perante a sociedade.
O teto da felicidade: Dinheiro Compra e Lápida Amor?
O premiado do Nobel Daniel Kahneman descobriu algo curioso: o dinheiro aumenta a nossa satisfação com a vida, mas só até certo ponto. No momento em que suas necessidades básicas (moradia, comida, lazer) estão garantidas, ganhar mais dinheiro não faz você amar mais o seu parceiro ou ser mais feliz no dia a dia.
Ou seja: namorar um milionário(a) pode te dar uma cama de seda, mas se não tiver conexão sentimental e emocional profunda, a seda vai parecer lixa depois de alguns meses após o casal cair na rotina do relacionamento. E com certeza a rotina sempre chegará na vida de qualquer casal.
A Armadilha do Materialismo
Aqui é onde o bicho realmente pega. Um estudo da Brigham Young University mostrou que casais que dão importância excessiva ao dinheiro e aos bens materiais (os chamados materialistas) têm casamentos muito mais infelizes ao longo do tempo.
Mesmo quando esses casais são ricos, a qualidade da conversa é pior e o nível de carinho é mais baixo em suas histórias de vida juntos. O foco no “ter” acaba sufocando o “ser”, e a relação vira um contrato comercial frio onde ninguém se sente realmente amado.
O Perigo do “Trabalho de 24 Horas”
Escolher alguém puramente pelo dinheiro transforma o relacionamento em um emprego. E um emprego sem folga! A ciência mostra que a falta de admiração mútua e de valores parecidos corrói a saúde mental. Viver em uma “gaiola de ouro” gera um estresse crônico que nenhum resort cinco estrelas consegue curar.
Vamos ver: Os Pesos na Balança
| Fator | O que os Estudos dizem? | Impacto no Relacionamento |
| Falta de Dinheiro | Principal causa de estresse e divórcio. | Gera ansiedade e brigas constantes. |
| Excesso de Materialismo | Diminui a conexão e a empatia do casal. | Vira uma relação de “aparência” e vazia. |
| Estabilidade Financeira | Traz conforto até certo patamar de renda. | Dá segurança para o casal planejar o futuro. |
| Interesse Puro | Relações baseadas só em troca financeira duram menos. | Acaba quando o dinheiro some, a rotina chega e quando a beleza passa. |
O Equilíbrio do Ouro com o Amor
A ciência sugere que o segredo não é escolher entre a fome e o banquete. O ideal é a estabilidade.
Ter alguém que corre junto e garante segurança financeira é ótimo e evita as brigas por boletos (que são a maior causa de crises de casais e divórcios, segundo a Kansas State University). Mas, sem o “tempero” da admiração e da química, o relacionamento vira uma conta matemática que nunca fecha ao longo do tempo.
Uma das necessidade humanas é amar e ser amado(a) genuinamente pelo menos em algum período importante da vida, como forma de realização.
No fim das contas, o dinheiro é um ótimo acessório, mas um péssimo protagonista. Escolha alguém com quem você queira dividir a conta do restaurante caro, mas que também seja a pessoa com quem você daria risada comendo um pão na chapa e que dividiria uma química profunda na intimidade, sentimentos e emoções da sua vida.
Afonso B. Bertini
Referências Bibliográficas
- BUSS, David M. Sex differences in human mate preferences: Evolutionary hypotheses tested in 37 cultures. Behavioral and Brain Sciences, 1989. (O clássico sobre como escolhemos nossos parceiros).
- BRITT, Sonya L.; HUSTON, Sandra J. The Relationship Between Money Issues and Divorce. Journal of Family and Economic Issues, 2012. (Sobre como o dinheiro — ou a falta dele — afeta as separações).
- CARROLL, Jason S. et al. Materialism and Marriage: Couple Profiles of Emotional Connection and Material Satisfaction. Journal of Couple & Relationship Therapy, 2011. (Sobre como o foco no consumo destrói a intimidade).
- FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas.
- KAHNEMAN, Daniel; DEATON, Angus. High income improves evaluation of life but not emotional well-being. PNAS, 2010. (A famosa pesquisa sobre o limite da felicidade financeira).


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