Caixas Mentais

Mente, comportamento, reflexões, relacionamentos e análise de fatos da humanidade.


A Teoria do Último Encontro: E se o seu “até logo” é, na verdade, um “Adeus” sem você saber?

Você já parou para pensar algo assim?

Que a última vez que você viu aquela pessoa, na verdade você não sabia que era a última vez!?

Pode parecer um pensamento um tanto mórbido à primeira vista, mas garanto: é uma das perspectivas mais libertadoras que podemos adotar em nossas vidas “no dia a dia”, vivemos como se tivéssemos um contrato de exclusividade com o tempo, acreditando que amanhã, na próxima semana ou no próximo Natal, aquelas pessoas — o(a) nosso(a) parceiro(a), filhos, nossos pais, aquele(a) nosso(a) amigo(a) de longa data — estarão lá, exatamente onde as deixamos pela última vez em um certo dia.

Mas a verdade é que a vida não faz promessas. E é aqui que entra a Teoria do Último Encontro.

O que é, afinal, esta teoria?

A ideia parece simples, mas o impacto é avassalador em nós: tratar cada interação como se fosse a última que tivemos com aquela pessoa. Não se trata de viver em pânico, em despedida constante ou em algum tipo de “pré-luto” em nossas vidas. Trata-se de presença. Quando assumimos que aquele café, aquela despedida no aeroporto ou rodoviária, aquela discussão boba sobre quem não lavou a louça, por ciúmes ou por dinheiro, aquele “bom dia” apressado pode ser o ponto final da história, o nosso comportamento muda. A irritação dá lugar à paciência; o orgulho dá lugar à escuta, a bondade e o empenho em busca de aproveitarmos ao máximo aquele momento.

Não sabemos qual será a ultima vez.

O “Eterno Retorno” de Nietzsche: Gostaria de repetir este momento para sempre?

Para darmos um mergulho mais afundo, precisamos falar de um senhor chamado Friedrich Nietzsche. Ele trouxe ao mundo uma ideia chamada “Eterno Retorno”.

Imagina que uma entidade te visita hoje e diz: “Tudo o que você está a viver agora — esta conversa, este sentimento, esta rotina — vais se repetir exatamente igualmente, em vezes incontáveis, por toda a eternidade.”

Isto te assusta ou te conforta?

Se estivesse ignorando quem você ama enquanto olha para o celular, a ideia de repetir esse momento para sempre seria um pesadelo. Mas, se aplicarmos a Teoria do Último Encontro, vamos querer que cada interação seja tão autêntica e valiosa que, se ela tivesse de se repetir infinitamente, nós estaríamos em paz. Nietzsche não queria que fôssemos perfeitos, mas que fôssemos donos dos nossos momentos.

Camus e a Arte de Viver no Absurdo

Outro pensador que nos ajuda a entender isso é Albert Camus. Ele falava muito sobre o “absurdo” — o fato de buscarmos sentido em um mundo que, muitas vezes, parece não ter nenhum e onde a morte é a única certeza.

Para Camus, a resposta não era o simples desespero, mas a rebeldia. E qual é a maior rebeldia contra a finitude da vida?

Você já parou para pensar nisso?

É viver o presente com intensidade. Se o futuro é incerto e o passado já se foi, o agora é a única dimensão que realmente possuímos. Quando você aceita que o encontro pode ser o último, você tira o peso das expectativas futuras e fica apenas com a pureza do valor daquele instante.

Mas como Aplicamos isto sem Enlouquecermos e nos Entristecermos?

Sei o que você está pensando: “Se eu pensar sempre que é a última vez, vou viver chorando!”. Mas é exatamente o oposto. A Teoria do Último Encontro é um filtro de prioridades dentro de nossas vidas.

Diga o que precisa ser dito: Não guarde afetos nem pedidos de desculpas para um amanhã que pode não chegar.

Largue o celular: Se este for o último encontro, você vai mesmo querer passá-lo vendo o feeds e reels de outras pessoas?

Humanize o conflito: Discussões acontecem, faz parte das relações humanas, pois todos nós somos diferentes. Mas, se for o último encontro, quer mesmo que a última lembrança seja um grito, uma briga, uma agressão e uma magoa por causa de um detalhe insignificante dentro de toda essa existência finita que temos em nossas vidas?

Ame mais abertamente: Afinal, você não sabe se aquele será o seu ultimo abraço naquela pessoa, sua ultima caricia, seu ultimo chamego, a sua ultima expressão de afeto ou o seu último “-Eu te Amo”. Sim, aquela ultima declaração de amor, que em arrependimento muitas pessoas dariam muito para poderem retornar a um momento passado especifico e realizar isso.

A Beleza da Impermanência

Viver com essa consciência é como ajustar o foco de uma lente. O que era turvo e banal passa a ter valor e cores mais vivas. A Teoria do Último Encontro não serve para nos entristecer, mas para nos despertar, mesmo que possa doer tentar entender isso.

No fim das contas, nossas “caixas mentais” estão cheias de planos para o futuro. Mas a vida, essa coisa imprevisível, maravilhosa e totalmente finita, só acontece no espaço entre o seu “olá” e o seu “até breve”, que você não tem certeza se é na verdade um “adeus”. Que esse espaço seja sempre preenchido com o melhor que você tem para dar.

Afonso B. Bertini

Referências Bibliográficas

  • NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. Lisboa: Relógio D’Água, 2013. (Para aprofundar o conceito de Eterno Retorno).
  • CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Lisboa: Livros do Brasil, 2013. (Para entender a revolta contra o absurdo e o valor do presente).
  • HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. (Embora mais denso, este autor fundamenta a ideia do “Ser-para-a-morte” como motor para uma vida autêntica).
  • KAHNEMAN, Daniel. Pensar, Depressa e Devagar. (Para entender como a nossa mente cria “caixas” de memória sobre o final de cada experiência).


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